O Ponto de Equilíbrio | Por Charles Massena
Quem está mais perto de mim já me ouviu dizer isso algumas vezes: se a campanha de Flávio Bolsonaro avançar para valer na disputa presidencial, acredito que a de Efraim Filho vai avançar junto na Paraíba.
Não comecei a pensar assim depois da última pesquisa. É uma leitura que venho fazendo há algum tempo. O que os números mais recentes fazem é dar mais elementos para observar esse movimento.
Por isso, vou registrar minha aposta enquanto ela ainda é uma aposta: Efraim Filho governador da Paraíba e Flávio Bolsonaro presidente do Brasil.
Que comecem as apostas.
Isso não significa tratar pesquisa como resultado de eleição. Lula continua muito competitivo nacionalmente. Lucas Ribeiro lidera levantamentos na Paraíba. Cícero Lucena segue forte na disputa estadual. Há campanha demais pela frente para qualquer um falar em eleição resolvida.
Mas política não é feita apenas de fotografias. Também é feita de movimento. E um dos movimentos mais interessantes desta eleição veio justamente de Augusto Cury.
Cury apareceu como uma novidade capaz de mexer com a polarização. Na pesquisa BTG/Nexus, saltou de 2% para 11% e se tornou o primeiro nome da chamada terceira via a alcançar dois dígitos. Em pouco tempo, passou a representar aquela parcela do eleitorado cansada de Lula de um lado e do bolsonarismo do outro. Só que o movimento seguinte também chama atenção. Os 11% viraram 9%. Depois, 6%. Enquanto Cury recuava, Flávio avançava.
Isso não autoriza dizer que os votos saíram diretamente de um e foram para o outro. Pesquisa não permite uma conclusão tão simples. Mas mostra algo que considero importante: uma terceira via conseguiu crescer quando havia espaço para novidade, mas começou a perder força quando a eleição voltou a se fechar em torno dos dois polos principais.
E é aí que o comportamento do eleitor começa a mudar. Chega um momento em que muita gente deixa de perguntar apenas “quem eu gostaria que fosse presidente?” e começa a pensar “quem realmente pode vencer?”.
É o voto estratégico entrando no jogo.
Se Flávio continuar crescendo e passar a ser percebido como o nome com condições reais de derrotar Lula, a tendência é que a polarização fique ainda mais forte. E eu tenho dificuldade de imaginar esse movimento passando pela Paraíba sem produzir consequências.
Efraim está justamente no campo político de Flávio. É o candidato ao Governo do Estado mais diretamente identificado com esse eleitorado. Quanto mais forte estiver a campanha presidencial, maior tende a ser a capacidade de Efraim de organizar militância, discurso e voto em torno da mesma ideia.
Isso não quer dizer que todo eleitor de Flávio votará em Efraim. A política paraibana tem dinâmica própria, lideranças municipais, alianças locais e interesses que muitas vezes ignoram a lógica nacional.
Mas também seria ingenuidade acreditar que uma eleição presidencial apertada não interfere na disputa estadual.
Há ainda outro elemento que considero decisivo. Cícero Lucena e Efraim Filho estão disputando o primeiro turno, mas os dois já admitiram publicamente a possibilidade de apoio recíproco caso apenas um deles chegue à segunda etapa. Não há acordo formal, e isso precisa ser dito. Mas existe uma porta aberta.
E atrás dessa porta estão lideranças de peso. Hoje, nomes como Cássio Cunha Lima e Romero Rodrigues caminham em um campo. Bruno Cunha Lima, Cabo Gilberto e outras lideranças importantes estão no outro. No primeiro turno, essas forças estão divididas. No segundo, podem não estar. E isso faz diferença.
Depois do primeiro turno, termina também a disputa proporcional. Deputados, candidatos, grupos políticos, prefeitos e lideranças que passaram meses cuidando de suas próprias campanhas passam a ter muito mais tempo e energia para concentrar na eleição de governador.
Se houver uma convergência entre essas forças, o peso político da oposição cresce.
Não significa transferência automática de votos. Eleitor não pertence a político e não existe soma matemática de percentuais. Mas estrutura, militância, presença regional e capacidade de mobilização contam.
Lucas Ribeiro continua com uma vantagem importante: governo, estrutura, prefeitos e liderança nas pesquisas. Mas uma coisa é enfrentar Cícero e Efraim divididos. Outra é enfrentar, num segundo turno, uma oposição que reúna nomes como Cássio, Bruno, Romero, Cabo Gilberto e outras lideranças em torno de um candidato só.
Se esse candidato for Efraim e, ao mesmo tempo, Flávio estiver disputando a Presidência voto a voto com Lula, a eleição paraibana poderá ganhar uma dinâmica completamente diferente.
É justamente essa possibilidade que venho enxergando.
Augusto Cury mostrou que havia espaço para uma alternativa à polarização. Cresceu muito rápido e, até aqui, também recuou rapidamente. Flávio, ao contrário, avançou e começou a se consolidar como o principal adversário de Lula.
Se essa tendência continuar, minha impressão é que a campanha presidencial começará a puxar ainda mais a estadual.
Por isso deixo registrado agora, antes que outubro diga quem estava certo ou errado: minha aposta hoje é Efraim Filho governador da Paraíba e Flávio Bolsonaro presidente do Brasil.
Pode não acontecer. Mas, olhando o movimento da eleição, eu já não considero essa combinação improvável.
Que comecem as apostas.



