Quando tudo parou, o que realmente importava?

A pandemia passou, mas parece que também levamos embora as lições que ela tentou nos ensinar

Existem períodos da história que dividem o tempo em antes e depois. A pandemia da Covid-19 foi um deles. Durante meses, o mundo que conhecíamos deixou de funcionar como sempre havia funcionado. Ruas ficaram vazias, portas foram fechadas, abraços foram interrompidos e famílias passaram a se encontrar através de telas, sem saber exatamente quando poderiam estar juntas novamente.

Todos nós perdemos alguma coisa naquele tempo. Muitos perderam pais, mães, filhos, irmãos e companheiros de uma vida inteira. Aqueles que tiveram a bênção de não perder alguém da própria família certamente conheceram um amigo, um colega de trabalho, um vizinho ou uma pessoa próxima que não voltou para casa.

A doença não perguntava quanto alguém tinha na conta bancária, qual cargo ocupava, quantos seguidores possuía ou se o seu nome era conhecido. Dinheiro, fama, influência e poder não foram suficientes para garantir proteção absoluta. Diante de algo que não podíamos enxergar, mas que alterava completamente nossas vidas, ricos e pobres, anônimos e famosos, autoridades e cidadãos comuns descobriram que a fragilidade humana não respeita títulos.

Por alguns momentos, todos fomos iguais.

A pandemia provocou uma ruptura dolorosa. Perdemos o contato, ficamos isolados e aprendemos, da pior maneira, o significado da saudade. Aquilo que antes parecia comum passou a ter um valor extraordinário: sentar-se à mesa com a família, visitar alguém, caminhar pelas ruas, encontrar os amigos, trabalhar, frequentar a igreja ou simplesmente abraçar quem amamos.

Começamos a valorizar as pequenas coisas porque as grandes já não estavam sob o nosso controle. Prometemos que seríamos diferentes quando tudo terminasse. Dissemos que abraçaríamos mais, julgaríamos menos, cuidaríamos melhor uns dos outros e não permitiríamos que a pressa nos afastasse de quem realmente importa.

A pandemia passou, mas, infelizmente, muitas dessas promessas também passaram.

A rotina voltou, as ruas se encheram e os compromissos retomaram os seus lugares. Aos poucos, aquilo que parecia essencial deixou novamente de ocupar o centro da nossa vida. A empatia perdeu espaço para a competição, o cuidado foi substituído pela conveniência e o ser humano voltou a ser tratado, muitas vezes, como um obstáculo, um número ou uma oportunidade de negócio.

Estamos cada vez mais concentrados em nós mesmos. Pensamos no que é melhor para a nossa carreira, para o nosso conforto, para a nossa imagem e para os nossos interesses, ainda que isso exija passar por cima de pessoas que um dia estiveram ao nosso lado. Acumulamos muito mais do que precisamos, enquanto tanta gente ainda não possui o necessário para viver com dignidade.

Transformamos quase tudo em negócio, disputa ou estratégia. Relações passaram a ser medidas pela utilidade. Pessoas são valorizadas enquanto podem oferecer alguma coisa e esquecidas quando deixam de ser convenientes. Há crianças desaparecendo ou sofrendo violência, famílias passando fome, idosos abandonados, pessoas doentes sem companhia e trabalhadores enfrentando dificuldades sem que ninguém ao redor tenha tempo para perceber.

Não faltam informações. Falta humanidade.

Talvez o nosso maior problema não seja desconhecer o sofrimento que existe, mas nos acostumarmos com ele. Vemos uma tragédia, lamentamos por alguns segundos e seguimos adiante. Assistimos à dor do outro como quem passa por mais uma publicação nas redes sociais. O sofrimento tornou-se conteúdo, e a indignação, muitas vezes, dura apenas até surgir o próximo assunto.

O ego cresceu tanto que já não conseguimos enxergar os corações que estão ao nosso redor.

E se vier outra pandemia?

Não falo apenas de uma nova doença, mas de qualquer acontecimento capaz de interromper novamente a falsa sensação de controle que construímos. Uma crise econômica, uma guerra, uma catástrofe ambiental ou alguma ruptura que ainda não somos capazes de imaginar. Estamos preparados somente com reservas materiais ou também temos construído relações que resistiriam a um tempo difícil?

Quando as primeiras notícias sobre o coronavírus surgiram na China, muita gente acreditou que aquilo jamais chegaria até nós. Para alguns, era exagero, estratégia de controle ou uma história distante, incapaz de alterar a realidade brasileira. Pouco tempo depois, hospitais estavam cheios, famílias estavam separadas e pessoas partiam sem ter a oportunidade de uma despedida.

O que parecia impossível aconteceu.

Por isso, talvez seja necessário perguntar antes que uma nova crise nos obrigue a fazer isso: você disse “eu te amo” a quem precisava ouvir? Cuidou de quem sempre cuidou de você? Fez o bem a quem está ao seu lado? Percebeu a dificuldade daquele colega que divide o ambiente de trabalho com você? Estendeu a mão quando poderia ter ajudado ou permaneceu concentrado apenas na cadeira que deseja ocupar?

Há pessoas dispostas a derrubar dezenas, centenas ou até milhares de outras para chegar a uma posição que, no final, não será capaz de preencher o vazio que carregam. Conquistam cargos, patrimônio, reconhecimento e poder, mas perdem a família, os amigos, a paz e a capacidade de sentir a dor de alguém.

Jesus fez uma pergunta que continua atravessando os séculos:

“Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?”
Marcos 8:36 — ACF

Existem conquistas que custam caro demais. Há coisas que possuem preço, mas não têm verdadeiro valor; da mesma forma, existem riquezas que não podem ser compradas. O tempo com os filhos, a presença dos pais, uma amizade sincera, a consciência tranquila, o respeito de quem nos conhece de verdade e a oportunidade de deixar uma história digna para aqueles que virão depois de nós não cabem em uma conta bancária.

Começo esta coluna porque acredito que um ponto de equilíbrio precisa existir em todas as áreas da nossa vida. Equilíbrio não significa ausência de opinião, neutralidade diante da injustiça ou medo de tomar posição. Significa ter maturidade para pensar antes de reagir, reconhecer quando estamos errados e mudar de direção sempre que o caminho escolhido estiver nos afastando daquilo que realmente importa.

Vale a pena parar, refletir e traçar uma rota diferente quando for necessário.

Que possamos pensar juntos sobre o mundo que estamos construindo, não apenas para nós, mas para os nossos filhos e para as próximas gerações. Que a nossa passagem por esta vida deixe marcas de cuidado, coragem, justiça e humanidade.

Que deixemos legado, e não vergonha.

Porque talvez a pergunta mais importante não seja quando a próxima grande ruptura acontecerá, mas quem teremos nos tornado quando ela chegar.

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