E se o eleitor estiver procurando uma terceira via?

O Ponto de Equilíbrio | Por Charles Massena

A eleição presidencial de 2026 talvez esteja nos dizendo mais sobre o eleitor brasileiro do que sobre os próprios candidatos. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva representa a esquerda e carrega consigo toda a força de um projeto político que já governa o país há anos. Do outro, Flávio Bolsonaro aparece como o principal nome do campo ligado ao bolsonarismo e à direita. No meio desse cenário, nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado tentam ocupar um espaço mais ao centro ou centro-direita.

Mas, nos últimos meses, um nome que inicialmente parecia correr por fora começou a chamar atenção: Augusto Cury.

E talvez a pergunta mais interessante desta eleição não seja quem está na frente hoje. Talvez seja outra: e se o eleitor estiver procurando uma terceira via?

A candidatura de Cury começou pequena nas pesquisas. Em levantamentos anteriores, aparecia na casa dos 2%. Depois veio um salto para dois dígitos. Na pesquisa Quaest divulgada no início de setembro, chegou a 10%. Nos levantamentos mais recentes, realizados já em setembro, aparece novamente em patamares próximos, ainda que com variações de metodologia e cenário. Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro, Cury marcou 7%, enquanto Lula tinha 36% e Flávio Bolsonaro, 31%.

Pode parecer pouco diante dos dois primeiros colocados. E, de fato, é preciso ter cautela. Pesquisa não é eleição, crescimento não significa segundo turno e muito menos vitória.

Mas uma coisa é impossível ignorar: Cury entrou no radar.

E quando alguém que estava praticamente fora da conversa começa a crescer, a pergunta deixa de ser apenas quanto ele tem. Passa a ser por que ele está crescendo.

Talvez parte da resposta esteja justamente no cansaço de uma parcela do eleitorado com uma disputa que parece repetir a mesma história. O Brasil passou anos dividido entre “Lula contra Bolsonaro” e, agora, mesmo com a mudança de nomes, a lógica continua muito parecida: esquerda contra direita, petismo contra bolsonarismo, um lado tentando impedir a volta do outro.

Há quem goste dessa disputa. Há quem viva dela. Mas também existe muita gente que simplesmente cansou.

É nesse espaço que Cury tenta entrar.

Escritor, psiquiatra e autor de milhões de livros vendidos, ele construiu uma carreira muito antes de entrar na política. Não chegou à eleição com uma trajetória tradicional de deputado, senador, prefeito ou governador. Chegou como uma personalidade pública reconhecida, com uma obra própria e uma enorme audiência.

E isso pode ser uma vantagem e, ao mesmo tempo, um problema.

Vantagem porque ele não precisa pedir licença para entrar na conversa política. Já possui uma imagem consolidada e uma comunicação direta com milhões de pessoas. Problema porque escrever livros, fazer palestras ou estudar comportamento humano não é a mesma coisa que administrar um país.

Essa diferença precisa ser encarada de frente.

Também chama atenção sua situação financeira. Cury declarou à Justiça Eleitoral patrimônio superior a R$ 242 milhões, o maior entre os candidatos à Presidência registrados em 2026.

Não cabe a ninguém concluir, por causa disso, qual seria a motivação pessoal de sua candidatura. Mas é inevitável que o fato desperte uma pergunta legítima: o que leva alguém que já construiu uma carreira, uma fortuna e uma imagem pública a entrar justamente na política, um ambiente tão desgastado?

Talvez essa seja uma das forças do discurso de Cury. Ele pode se apresentar como alguém que não depende da política para viver. Mas também é justamente por isso que precisará convencer o eleitor de que não basta ser uma pessoa bem-sucedida fora dela. É necessário demonstrar que sabe governar dentro dela.

E governar o Brasil é algo muito mais complexo. Uma equipe técnica pode ser excelente. Ministros podem ser preparados. Especialistas podem contribuir muito. Mas presidente não governa sozinho. É preciso Congresso Nacional, governadores, prefeitos, partidos, instituições, negociações, diálogo e capacidade de construir maioria. Não existe governo sem política, porque a democracia é política.

Essa talvez seja uma das principais fragilidades que Cury precisará enfrentar. Seu discurso contra a polarização pode agradar justamente quem está cansado da guerra política. Mas a mesma proposta precisa responder a uma questão prática: como governar sem reproduzir os velhos mecanismos de articulação que ele critica?

Na convenção que oficializou sua candidatura pelo Avante, Cury chegou a defender mudanças profundas no sistema político, incluindo a adoção do semipresidencialismo.

É uma discussão legítima e importante. Mas mudar o sistema também exige política. E aí está a contradição que toda candidatura de terceira via precisa resolver: querer fazer diferente é uma coisa; conseguir fazer diferente dentro das regras existentes é outra.

Talvez seja por isso que o crescimento de Cury incomode. Toda mudança, quando começa a crescer, incomoda alguém.

Uma candidatura que aparece com 1% ou 2% pode ser ignorada. Quando chega aos dois dígitos, passa a merecer atenção. E quando ameaça espaços que já estavam distribuídos, passa a ser questionada com muito mais intensidade.

Não há nada de anormal nisso. Faz parte da democracia.

Mas também existe um limite que não pode ser ultrapassado. A disputa política pode produzir críticas, confrontos, desconstrução de propostas e ataques eleitorais. Não pode produzir violência.

E aqui entra uma questão que talvez ainda pareça distante, mas não deveria ser ignorada: segurança.

Não existe, até o momento, elemento concreto que permita afirmar que Augusto Cury esteja sob alguma ameaça específica. Seria irresponsável transformar uma preocupação em acusação. Mas também seria ingenuidade esquecer que candidatos, quando ganham exposição nacional, passam a enfrentar uma realidade completamente diferente daquela vivida por quem ainda era desconhecido.

O Brasil já viu isso.

Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante um ato de campanha em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018. Dois anos antes daquela eleição, ninguém imaginaria que um candidato então tratado muitas vezes como improvável sofreria um atentado que mudaria completamente sua campanha.

Em 2014, Eduardo Campos morreu na queda do avião em que viajava durante a campanha presidencial. O acidente ocorreu em 13 de agosto daquele ano, em Santos, e as investigações oficiais apontaram fatores ligados à operação da aeronave e às condições do voo.

São acontecimentos completamente diferentes e não existe base para colocá-los dentro de uma mesma explicação política. Mas eles deixam uma reflexão: quanto maior a exposição de um candidato, maior precisa ser também a preocupação com sua segurança.

E, em política, crescimento também aumenta a quantidade de adversários, críticos e interesses contrariados.

Talvez por isso seja importante observar não apenas o que está acontecendo com Cury, mas o que acontecerá à sua volta caso esse crescimento continue.

Outra parte dessa história chama atenção: Cury não encontrou imediatamente uma legenda pronta para sua candidatura.

Antes de se filiar ao Avante, ele relatou conversas com dirigentes e lideranças de diferentes partidos, entre eles Gilberto Kassab, Aécio Neves, Marcos Pereira, Renata Abreu, Pastor Everaldo e Michel Temer, entre outros. Depois dessas conversas, acabou encontrando no Avante a estrutura partidária para disputar a Presidência.

É curioso.

Uma candidatura que hoje tenta representar uma alternativa aos extremos quase precisou encontrar, primeiro, uma porta partidária que se abrisse.

Isso diz muito sobre o funcionamento da política brasileira. O sistema partidário tradicional costuma procurar nomes que já tragam máquina, alianças, estrutura e grupos políticos. Cury fez o caminho inverso: primeiro construiu uma carreira, uma audiência e uma imagem pública; depois procurou uma legenda capaz de transformar isso em projeto eleitoral.

E agora aparece outro fenômeno interessante.

Já é possível observar, principalmente nas redes sociais, pessoas que antes se identificavam claramente com Lula e outras que se identificavam com Bolsonaro demonstrando simpatia por Cury. É claro que isso ainda não pode ser tratado como uma migração consolidada de votos. Rede social não é pesquisa eleitoral. Nem todo comentário significa voto. Mas o fenômeno merece atenção. Porque talvez o mais importante não seja saber quantos lulistas ou bolsonaristas já mudaram de lado. Talvez seja perceber que existe gente que está começando a procurar um lado diferente.

E isso muda a conversa.

A política brasileira acostumou-se tanto a trabalhar com dois grandes campos que qualquer terceira possibilidade costuma ser tratada como aventura, voto desperdiçado ou candidatura auxiliar. Eduardo Campos tentou ocupar esse espaço em 2014 e chegou a aparecer com força nas pesquisas antes de sua morte durante a campanha. A lição daquele momento, entretanto, não é que toda terceira via necessariamente cresce até o fim. A lição é que existe espaço para alternativas quando parte do eleitorado acredita que as opções tradicionais já não respondem ao que procura.

Agora, em 2026, esse espaço parece novamente existir. Mas existe uma diferença fundamental entre ocupar o espaço e sustentá-lo.

Para crescer, Cury precisará enfrentar não apenas Lula e Flávio Bolsonaro, mas também o teste das propostas, dos debates, da imprensa, dos especialistas, do eleitor mais desconfiado e, principalmente, da própria realidade.

Nas entrevistas recentes, ele apresentou propostas em áreas como educação, empreendedorismo, saúde, segurança e mudanças institucionais, mas também recebeu questionamentos sobre detalhes e viabilidade de algumas de suas ideias.

E isso é saudável.

Um candidato que pretende romper com a velha política não pode pedir que seja tratado com menos rigor justamente porque é novo. Pelo contrário. Quanto mais diferente ele diz ser, mais precisa aceitar perguntas difíceis.

É aqui que a figura de Augusto Cury precisa ser separada do candidato Augusto Cury.

O escritor já possui uma história. O pensador já possui uma obra. O psiquiatra construiu reconhecimento. Mas o candidato ainda precisa construir uma demonstração de capacidade política. E talvez seja justamente essa a parte mais interessante dessa eleição. Não sei se Cury será presidente. Ninguém sabe.

Talvez esses 7%, 10% ou 11% sejam apenas o retrato de um momento. Talvez ele cresça. Talvez recue. Talvez seja ultrapassado por outro candidato. A eleição ainda precisa passar por debates, campanha, alianças, exposição e voto.

Mas existe uma pergunta que já não pode mais ser ignorada: e se o eleitor brasileiro estiver realmente cansado de escolher apenas entre dois lados? Talvez Augusto Cury seja a resposta. Talvez seja apenas o primeiro sinal de uma mudança maior. Talvez amanhã outro nome ocupe esse espaço.

Mas uma coisa parece evidente: quando pessoas dos dois lados começam a olhar para uma terceira possibilidade, quando um candidato que começou praticamente desconhecido passa a aparecer nas pesquisas e quando alguém que não nasceu das estruturas tradicionais começa a ocupar espaço no debate nacional, não estamos mais diante de uma simples curiosidade eleitoral.

Estamos diante de uma pergunta sobre o próprio eleitor. O Brasil quer continuar escolhendo entre o medo de um lado e a rejeição ao outro? Ou está começando a procurar alguma coisa diferente? Essa é uma resposta que não pertence aos candidatos. Pertence ao eleitor.

E talvez uma terceira via só tenha sentido se conseguir ser mais do que a terceira opção na urna.

  • Redação Eixo PB

    A Redação Eixo PB produz notícias sobre política, cidades, economia, cultura, serviços e acontecimentos de interesse público na Paraíba, com atenção especial a Campina Grande e João Pessoa.

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